Prezado Jabor

* Texto publicado em 14 de junho de 2013, que gerou mais de 25 mil compartilhamentos na minha página do Facebook.

Prezado Jabor,

Posso te chamar de Arnaldo? Ou melhor, Naldo! Ah, Naldo é bacana, vai! Tá na moda, dá um ar descolado. Apesar de o papo aqui entre nós ser bem sério hoje.

Sabe, o problema não são os “vinte centavos a mais” que você falou outro dia. É a relação inversamente proporcional entre o custo da passagem que sobe, e a qualidade do transporte público que desce.

Se pagar 3,15 no Rio me garantisse um ônibus de qualidade, em intervalos regulares e guiado por um motorista bem preparado (e educado), eu estaria feliz da vida, cara! Te juro! Deixaria até gorjeta pro “piloto”. Mas você REALMENTE acha que é isso que acontece?

Ah, você nem sabe, né? Porque dentro do seu carrão super confortável deve ser mesmo muito difícil imaginar alguém andando por aí como uma sardinha em lata e se sentindo humilhado pelas condições degradantes que lhe impuseram. É quase um universo paralelo.

Confesso que fiquei bastante ‘‪#‎chatiado‘ com você, pra usar uma expressão bem comum hoje em dia entre os jovens. Jovens como eu, de classe média, com algum grau de esclarecimento e que utilizam constantemente a internet.

Uma turminha que, segundo você, não tinha nada que estar ali protestando, já que não depende de metrô, ônibus, trem. Essa foi uma das afirmações mais tolas que já ouvi em toda a minha vida, e pior ainda é que boa parte da Imprensa embarcou na mesma onda!

Diversos jornalistas – pra minha tristeza e repúdio – classificaram como mero vandalismo a ação dos manifestantes, e estão até agora tentando me convencer de que há toda uma TEORIA DA CONSPIRAÇÃO por trás, gente oportunista que estaria se aproveitando da proximidade das eleições pra manipular os demais e assim conseguir que… ok, já chega, podem parar por aí antes que o meu estômago revire de vez.

O que eu queria entender, caro Jabor, é por que não apareceu a cara de pelo menos UM empresário dono de ônibus na minha TV. Ou ao menos UMA linha sequer falando sobre eles em um jornal. Uma mísera declaração no rádio. Num site, que seja. Quem são eles? Aonde vivem? Do que se alimentam? Ninguém sabe, ninguém viu. Tal qual criaturas das trevas, eles se escondem nas sombras e são sempre poupados, preservados. Por quê???

Enquanto isso, policiais tomam pedrada, estudantes levam gás de pimenta, rodoviários são escravizados, trabalhadores são prejudicados. Aí você veste o seu terninho elegante, vai pra frente da câmera e tem a PACHOLA (só pra usar um termo que gente velha adora) de me falar que isso tudo foi “por causa de vinte centavinhos a mais”?

Olha, eu condeno atos de violência e acho lamentável depredar lojas, saquear, fazer balbúrdia. Mas desviar a atenção toda pra essa questão, como se fosse este o foco do problema, e querer refletir sobre a força maligna que estaria por trás, é de uma covardia que eu não sei nem dimensionar. Mais do que isso, é querer me chamar de abestado!

Ainda mais com essa total PARCIALIDADE que os meios de comunicação estão demonstrando, querendo desqualificar os protestos legítimos e praticamente dizer que eles são um exagero, coisa de um bando de gente reprimida que não tinha videogame pra extravasar sua raiva e decidiu protestar contra a primeira bobeirinha que apareceu.

Sou capaz de aceitar que esse discurso de lavagem cerebral venha de um político idiota, pois assim são os políticos. Pega o Paes no Rio e o Haddad em Sâo Paulo, que você vai ver. Ou o Cabral e o Alckim. O discurso é o mesmo, são tudo farinha do mesmo saco. Só muda o sotaque.

Agora, vir de jornalistas como você, Naldo, aí não dá pra engolir. Esse posicionamento antagônico com a população mostra apenas a falta de identidade e o descompasso que a profissão vive atualmente, mas aí é outra história, deixa quieto.

Naldo, em ilustração de Zé Otávio para a revista 'Alfa'. Achei charmoso.

Naldo, em ilustração de Zé Otávio para a revista ‘Alfa’. Achei charmoso.

Coincidentemente, olha só, precisou que uma repórter da Folha fosse atingida no olho por balas de borracha pra começarem a rever os conceitos e partirem pro ataque. Mas atacar quem, cara-pálida? Eu? Você? Ei, espera aí galera, que eu saiba devíamos estar lutando juntos, do mesmo lado! Só que não.

Realmente, deve ser muito mais legal pros nossos prefeitos e governantes que o mundo ache que isso aqui é uma festa incessante, uma farra do bundalelê! Onde todo mundo vai trabalhar de biquíni e sunga, sambando no pé e com um sorriso de orelha a orelha, batendo uma bolinha na hora do almoço e voltando pra floresta em um carro alegórico, tudo regado a bastante caipirinha e cerveja gelada. No dia seguinte, tudo de novo, claro!

Afinal, estamos no Brasil, o malandrão, a potência, a terra do jeitinho. Aqui é tudo tão bom, tão perfeito, que a gente só de sacanagem resolve dar uma aprontada de vez em quando, só pra ver qual é.

Sim, há muito jovem alienado de classe média (e alta) nas redes sociais. Mas eu prefiro falar dos que têm algo a dizer, e não só os que dizem, mas principalmente fazem. Há militantes em potencial por aí, e não rebeldes sem causa. Até porque o que não faltam são causas pra lutar.

Também tem os aproveitadores, e a galera do oba-oba, mas eles são que nem barata, estão em toda a parte. A garotada de hoje em dia pode não ter lutado na Ditadura, nem nas Diretas ou no Impeachment do Collor. Mas tem voz e ferramentas pra reclamar de muita coisa, nessa bagunça em forma de país.

Que não subestimem os jovens por gostarem de um Facebook aqui, um Instagram ali, um vídeo engraçado do Youtube acolá. Gostar de alguma futilidade não é ser alienado e
nem indiferente. E é por isso mesmo que eu te digo, Naldo Jabor: Você errou. Errou feio. Errou rude. E se existe um Deus (polinésio ou não) ele tá de olho em você.

Um abraço, do amigo Sandro

‪#‎FicaDica

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